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Dezembro Vermelho: reflexões sobre HIV, jovens e prevenção sem medo

Pediram-me para conversar com jovens aprendizes sobre o Dezembro Vermelho. Esse convite me fez lembrar imediatamente das orientações que recebi no colégio religioso onde estudei.

No final das apresentações, depois daquelas imagens impactantes, aumentavam as “vocações”. Até hoje fico em dúvida se aquilo era efeito do impacto ou da rejeição que aquelas imagens causavam na percepção da nossa sexualidade.

Então me perguntei: qual deveria ser a minha abordagem desta vez?

Palestra na GERAR com jovens aprendizes 

Por que escolhi falar sem medo

Lembrei do método de Mudança de Comportamento Social (Social and Behavior Change – SBC), promovido pelo UNICEF. Ele parte de um princípio que considero fundamental: mudanças sociais duradouras não acontecem pela imposição nem pelo medo, mas pela construção de novos significados dentro de redes de confiança.

Nessa perspectiva, a mudança individual é necessária, mas não suficiente. O que sustenta a transformação é o ambiente social: o modo como a comunidade reage, apoia e define o que é aceitável ou não.

Nossa tendência é seguir as “normas sociais” que são regras informais, muitas vezes não escritas, que definem ações aceitáveis ​​e apropriadas dentro de um grupo ou comunidade. Uma norma social existe quando fazemos algo porque acreditamos que outros membros da comunidade fariam o mesmo. O comportamento é motivado pelo nosso desejo de nos ajustarmos ao comportamento dos outros.

Se isso vale para os adultos em geral, é especialmente importante para os jovens!

O HIV e o perigo de não aparecer

Comecei a conversa explicando a “esperteza” do vírus causador da AIDS (HIV): em geral, os vírus mostram logo que estão no nosso corpo: febre, sintomas respiratórios ou manchas bem visíveis na pele etc.

Já o HIV pode ficar muitos anos, até uma década, multiplicando-se no organismo humano, contaminando outras pessoas sem que se perceba.

E aí mora o perigo: é fácil querermos usar máscara se alguém está com tosse, febre ou querer distância quando percebemos erupções na pele. Como não há sinais de que o HIV já contaminou nosso parceiro, há quem descuide.

O que os jovens sabem — e o que realmente fazem

Quase todos os jovens mencionaram a camisinha, masculina ou feminina, como forma de prevenção das ISTs. Então fiz a pergunta direta:

Mas vocês usam mesmo?

A resposta foi honesta: na maior parte das vezes, não.

Um dos componentes essenciais de uma intervenção SBC é fomentar a participação e co-criação com os interessados. Então propus que sugerissem mensagens que incentivassem outros jovens a usar seu conhecimento para proteger a si mesmos e aos seus parceiros. Foram muitas ideias, muitas provocações e uma animada troca de experiências. 

Você pode assistir duas destas palestras, que, com jovens diferentes, produziram discussões também diferentes e complementares:

https://www.youtube.com/watch?v=lAcAIEe2X3Y 

Empoderamento feminino como fator de proteção

Pai de três filhas, sempre procurei incentivá-las a assumir as rédeas de suas vidas e a usar a força do grupo como estratégia de enfrentamento.

Ao falar de prevenção, não dá para ignorar que muitas mulheres — especialmente jovens — ainda enfrentam dificuldade para negociar o uso da camisinha com seus parceiros. Por isso, autonomia feminina e apoio entre pares também são fatores de proteção.

Esse tema me lembrou um episódio marcante da minha vida acadêmica: um dos meus colegas fez uma provocação considerada desagradável por uma de nossas colegas. Como ele insistisse nisso, as mulheres da sala deram um “gelo” nele e, para aumentar o impacto, convocaram os homens da sala a fazer o mesmo. Alguns dos colegas meio machistas, achavam que era “exagero”. 

Então, as futuras médicas declararam que, se eles não colaborassem, nunca mais seriam convidados para trabalhos de grupo, encontros e festas: ficariam no “gelo” também. Imediatamente todos se alinharam à demanda feminina (alguns a contragosto) e o comportamento desagradável não voltou a ocorrer, e assim aprendemos o poder do grupo que atua em conjunto.

Solidariedade que me dá esperança

Mas quem cometeu uma imprudência certamente está mais fragilizado: quando comecei a provocar o grupo a ser solidário e ajudar essa pessoa a buscar os serviços de saúde, fui surpreendido com depoimentos de jovens que já haviam feito isso.

Por isso tenho muita esperança: nossos jovens são solidários e capazes. Precisamos dar mais espaço para que suas ideias sejam debatidas, criticadas e implementadas por outros jovens.

Este debate inter-pares certamente os fortalecerá para os desafios futuros.

Mas acima de tudo, apesar de viverem cercados de propostas imediatistas e de “uso” de outros para sua satisfação, percebi que esses jovens continuam buscando construir relacionamentos sólidos e respeitosos, derrubando aquela frase que ouvi há quase quarenta anos: “Este mundo não tem mais jeito, cada um só pensa em si, só sobrei eu para pensar em mim”.

O que quero deixar no seu coração

Os jovens são mais solidários e conscientes do que muitas vezes imaginamos. Quando encontram espaço para dialogar, criar e agir em conjunto, mostram uma enorme capacidade de cuidado com o outro.

A prevenção do HIV não nasce do medo, mas da confiança, do apoio mútuo e do respeito. Dar voz aos jovens, ouvi-los e caminhar com eles talvez seja uma das formas mais eficazes de transformar informação em cuidado real.

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