Category: Combate e prevenção de doenças

  • Janeiro Branco: a ciência da esperança e a promoção da saúde mental

    Durante o Janeiro Branco, somos convidados a olhar para a saúde mental de forma mais profunda, indo além do sofrimento e das crises. Essa reflexão abre espaço para uma pergunta essencial — o que faz uma vida realmente valer a pena? Nesse movimento, ganha força uma perspectiva cada vez mais respaldada pela ciência, que propõe deslocar o olhar do sofrimento para aquilo que sustenta o bem-estar, fortalece as pessoas e ajuda a construir uma vida mais significativa.

    A psicologia positiva e a ciência do bem-estar 

    Como estudante de Medicina, tive abordagens muito interessantes na área da Psiquiatria (mérito, em especial, do Professor Lemos). No entanto, o foco daquela época recaía quase exclusivamente na elaboração do sofrimento passado para tentar alterar o presente. Isso me causava certo incômodo; parecia um processo lento e de resultados muitas vezes limitados.

    Minha perspectiva mudou ao travar contato com a obra “Felicidade Autêntica”, de Martin Seligman, ex-presidente da Associação Americana de Psicologia. Seligman propôs uma revolução no foco: em vez de a psicologia se dedicar apenas à cura de traumas, ela deveria estudar cientificamente o que faz a vida valer a pena.

    Em sua obra mais recente, Homo Prospectus, ele aprofunda essa ideia: não somos movidos pelo passado, mas puxados pelo futuro. Nossa consciência é, essencialmente, uma máquina de prospecção, simulando cenários e possibilidades. Assim, a saúde mental hoje é vista como a capacidade de imaginar futuros positivos e cultivar as ferramentas para construí-los.

    Para florescer, o autor aponta pilares fundamentais que compõem o bem-estar:

    • Emoções Positivas: Cultivar gratidão, alegria e otimismo.
    • Engajamento: O estado de entrega total a uma atividade onde o tempo “voa”.
    • Relacionamentos: Conexões sociais profundas; a solidão é um veneno biológico.
    • Sentido de Vida: Pertencer e servir a algo maior que o próprio “eu”.
    • Realização: O esforço para atingir metas e sentir-se competente.

    Somam-se a isso a Eficácia (crer que nossas ações geram resultados) e fatores biológicos vitais como Atividade Física, Nutrição e Sono, essenciais para a regulação emocional.

    O poder da gratificação altruísta

    O que mais me impactou nos estudos de Seligman foram os experimentos comparando a “Atividade Prazerosa” com a “Atividade Filantrópica”. Ele comprovou que o prazer sensorial é efêmero, desaparecendo quase instantaneamente após a atividade. Já a gratificação vinda do altruísmo — como ajudar um estranho ou visitar um doente — é duradoura. Quem realiza atos de bondade continua sentindo-se melhor dias depois, mudando inclusive a forma como interage com os outros.

    O psicólogo , embora agnóstico, reconheceu um ensinamento de seus pais e da tradição judaica (Tzedaká): a caridade não é um favor opcional, mas um ato de justiça. É uma obrigação moral que organiza a vida e confere sentido ao indivíduo. Ele resgata a ideia do ser humano como um “co-criador” do mundo, validando o princípio de que “há mais felicidade em dar do que em receber”.

    Ao analisar as gerações passadas, Seligman observou que a depressão era menos comum, apesar de tempos mais difíceis (guerras e crises). O motivo? Eles estavam inseridos em instituições positivas (família, comunidade, fé) que exigiam o serviço ao próximo constante. A filantropia é o antídoto para o “eu” inflado da modernidade, que busca prazer mas encontra vazio.

     Quando a teoria encontra a vida real

    Vi inúmeras pessoas deprimidas que entraram na Pastoral da Criança quase “forçadas” por familiares. Ao se engajarem e verem o sofrimento dos mais vulneráveis, ajudando-os a serem agentes de sua própria transformação, acabavam transformando a si mesmas.

    Recordo-me, com um sorriso, de uma reunião de emergência convocada pelo marido e filhos de uma coordenadora da Pastoral, sem a presença dela. Eles estavam apavorados porque ela pensava em sair do voluntariado. Prometeram de tudo: o marido seria também voluntário, ajudaria financeiramente, os filhos se engajariam,tudo para que ela continuasse.

    O motivo da urgência ficou claro: antes da Pastoral, ela era uma pessoa difícil, que implicava com tudo o tempo inteiro. Mas, ao voltar do trabalho voluntário, chegava feliz e agradecida por ter sido abençoada com saúde, casa, família… Ela não apenas ajudou os pobres e vulneráveis; ela construiu sua própria felicidade autêntica e tornou-se fonte de paz, alegria e, pela exemplaridade de sua dedicação, motivo de orgulho para toda a família!

    Refletir sobre saúde mental também é reconhecer que cuidar da mente não se resume a evitar o adoecimento. É, sobretudo, criar condições para que as pessoas possam florescer, encontrar significado e viver de forma mais integrada consigo mesmas e com os outros.

  • Janeiro Roxo 2026: prevenção, diagnóstico precoce e enfrentamento da hanseníase

    Você sabia que a hanseníase só existe em dois países do mundo? Brasil e Estados Unidos.  Nos outros países, essa doença é chamada de lepra. Até a campanha da OMS – Organização Mundial da Saúde para eliminação desta doença chama-se “Towards zero leprosy.

    Quando estive na sede da OMS, em Genebra, o então responsável me explicou: nós preferimos eliminar a doença do que ficar trocando de nome — ainda que a intenção seja diminuir o preconceito — o tempo e recursos usados nisso poderiam ser melhor aplicados na prevenção e cura. Além do que, com o tempo, o preconceito passa para o novo nome…

    Mas como está no Brasil?

    Em maio de 2022 assustei-me com o que vi em Imperatriz, no Maranhão: 16 novos casos de hanseníase em apenas uma UBS – Unidade Básica de Saúde. E pasmem, estes números referem-se somente aos casos diagnosticados em crianças!

    Mas isso não é novidade: o Brasil é o segundo país com mais diagnósticos de hanseníase detectados, concentrando cerca de 14% de todos os novos casos que ocorrem no mundo.

    Entre 2010 e 2024, aumentou o número de pessoas com hanseníase em quatro estados: Pernambuco, Minas Gerais, Tocantins e Mato Grosso. 

    Aliás, Tocantins e Mato Grosso são os campeões nacionais e, para piorar o quadro, Mato Grosso mais do que dobrou o número de pessoas com hanseníase nesses anos.

    Veja  no gráfico abaixo a situação por Região do Brasil:

    Fonte: gráfico elaborado a partir de dados da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde obtidos em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hanseniase/situacao-epidemiologica/dados-epidemiologicos/taxa-de-prevalencia-de-hanseniase-por-10-000-habitantes-segundo-unidades-da-federacao-regioes-e-brasil-2010-a-2024/view

    Assim que soubemos do número de crianças afetadas no Maranhão, lançamos em junho de 2022 o material e-Combate a Hanseníase: vale a pena você dar uma olhadinha para saber como se previne, como se faz o diagnóstico e como se trata esta doença. E, para minha surpresa, neste mesmo mês, uma voluntária do oeste catarinense me pediu o material pois foi detectado um caso de hanseníase no município dela. Santa Catarina é hoje o segundo melhor estado em indicadores relacionados à hanseníase, o que reforça algo importante: a doença não está distante. Ela está mais próxima do que muitas vezes imaginamos. 

    O que você precisa saber

    Segundo a Organização Mundial da Saúde, os principais fatos da hanseníase são:

    • A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada por um tipo de bactéria, o Mycobacterium leprae.
    • A doença afeta predominantemente a pele e os nervos periféricos. Se não tratada, a doença pode causar incapacidades progressivas e permanentes.
    • A bactéria é transmitida por gotículas expelidas pelo nariz e pela boca durante o contato próximo e frequente com casos não tratados.
    • A hanseníase é curável com poliquimioterapia (PQT).
    • A hanseníase pode ser eliminada!

    Para eliminar a Hanseníase, precisamos interromper a transmissão:

    (i) implementar roteiros integrados e nacionais para a erradicação da hanseníase em todos os países endêmicos;

    (ii) ampliar a prevenção da hanseníase juntamente com a detecção ativa integrada de casos;

    (iii) controlar a hanseníase e suas complicações e prevenir novas incapacidades; e

    (iv) combater o estigma e garantir o respeito aos direitos humanos. 

    O Brasil não pode continuar convivendo com a hanseníase. Muitos países com menos recursos que o nosso já conseguiram eliminá-la. O Janeiro Roxo nos lembra que esse objetivo é possível, desde que haja informação, diagnóstico precoce, enfrentamento do estigma e compromisso coletivo. Junte-se à essa campanha.