Esta é uma “lei” que vale a pena quebrar: a população que mais precisa de boa assistência médica é justamente a que menos a recebe!
Há mais de 50 anos, o médico inglês Julian Tudor Hart expôs esta lei não escrita, resultado da lógica de mercado aplicada à saúde: quem tem melhores condições de vida adoece menos e acessa uma medicina de qualidade; quem mais precisa, recebe cuidados piores (quando recebe).
Será que continua assim? E o nosso SUS? Conheço bem o Maranhão, desde antes do nosso SUS-Sistema Único de Saúde. Na região de Bacabal, antes do SUS, quem não tinha dinheiro simplesmente não era atendido pelos médicos (com exceção do Ambulatório Madre Rosa, das irmãs alemãs de Nossa Senhora dos Anjos, onde trabalhei nos anos de 1988 e 1989).
Um Sistema Único de Saúde com muitas diferenças
Posso dizer que, nos últimos 30 anos, o Maranhão avançou o equivalente a meio século em termos de saúde. Mas ainda está muito atrasado em relação às regiões mais ricas do país. Quer exemplos?
- a Maternidade Dona Iris, da prefeitura de Goiânia/GO, tem 70% dos leitos individuais e no restante, duas gestantes por enfermaria.
- na Maternidade Regional de Imperatriz/MA, no mesmo período, havia 29 gestantes por enfermaria.
E pior: um município a apenas 50 km de São Paulo/SP tinha uma maternidade nova, recém equipada com mais de R$ 10 milhões em equipamentos, mas permanecia fechada, porque a Santa Casa local dava conta de todos os nascimentos, com folga.
A chamada sistemática do “orçamento secreto”, praticada pelo Congresso Nacional, é parte do problema: infelizmente não é a necessidade da população que define para onde vão bilhões de reais do orçamento do Ministério da Saúde.
E quem mais sofre com isso?
As gestantes que buscam atendimento em Imperatriz, por exemplo, vivem em piores condições de vida, têm maior proporção de gestações de alto risco, e demandam mais exames, UTI neonatal, especialistas…
Já em Goiânia ou São Paulo, as gestantes têm mais saúde, acesso à atenção pré-natal adequada e chegam em melhores condições aos serviços.
Ou seja, mesmo que o Maranhão recebesse a mesma quantidade de recursos financeiros que Goiás ou São Paulo, suas gestantes não teriam o mesmo resultado nos atendimentos. Isso porque tratar pessoas em situação de maior vulnerabilidade custa mais caro e exige políticas mais sensíveis e equitativas.
Como quebrar este ciclo vicioso?
- Conhecendo a realidade.
- Investindo mais onde e em quem mais precisa.
- Praticando uma solidariedade inteligente — não aquela que mantém o pobre pobre.
- Políticas intersetoriais para atacar as causas sociais da desigualdade: a saúde depende de saneamento, renda, alimentação adequada, transporte, habitação…
- Monitoramento do impacto das políticas de equidade: uso de indicadores específicos para medir se ações e recursos estão realmente reduzindo desigualdades.
O que quero deixar no seu coração
Investir igualmente em realidades desiguais é perpetuar injustiças. Equidade em saúde exige priorizar os mais vulneráveis.
E essa ideia de equidade é bastante antiga, já consta na Bíblia, conforme Atos dos Apóstolos, 4:34-35: “Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois o que tinham era distribuído conforme a necessidade de cada um.”

