Até que ponto nos arriscamos para defender uma criança?

Lembro-me de quando eu era criança, vivendo em uma área rural. Ficava chateado com meu pai: ele não fazia nada quando contávamos que um vizinho batia em nosso amigo, companheiro das peladas de futebol.

Mas um dia, o pai desse adolescente, alcoolizado (e sem o costumeiro chicote em mãos) pegou o que estava mais próximo: uma foice. Corri para avisar meu pai. Ele saiu em disparada e ficou entre o adolescente e o homem, desviando-se das tentativas do agressor de acertar o menino com a foice.

O desespero foi ainda maior: agora era meu pai que corria risco. Depois de eternos minutos, o homem largou a foice, acalmou-se (e o adolescente fugiu para o mato). Quando voltamos para casa, perguntei por que ele havia interferido. Meu pai respondeu, com tranquilidade:

— Tudo tem limite.

Normas sociais são regras informais

Lembrei desta história ao participar do “Seminário Internacional sobre Mudança Social e Comportamental (SBC) para Atores da Fé” promovido pelo UNICEF. Aprendemos que normas sociais são regras informais (geralmente não escritas) que definem o que é considerado aceitável dentro de um grupo ou comunidade. Uma norma social existe quando fazemos algo porque acreditamos que outros membros da comunidade fariam o mesmo.

Na minha infância, a norma social era sempre corrigir as crianças, mesmo com violência: “É de pequeno que se torce o pepino”, dizia-se. Era o que se esperava de um “bom pai”, principalmente em áreas rurais.

E isso me faz pensar: o quanto você se arriscaria para defender uma criança? Pelo que vejo nas ruas e praças, pouquíssimas pessoas interferem. Fácil ouvir alguém comentando que o adulto (ir)responsável está sendo desatento ou negligente e que logo a criança irá se machucar e, então, dar as costas – “problema deles”.

No entanto, às vezes, uma simples frase pode mudar o rumo: cuidado com a balança, ela não tem freio!

Em outras situações, o desafio é maior: como intervir quando uma criança está apanhando de um adulto, no meio da rua? Esperar a polícia pode ser tarde demais. Comentar algo como “vai bater em alguém do seu tamanho?” pode ser visto como provocação (ou um pedido para ser a vítima…).

Mas às vezes, um simples “Posso ajudar?”, dito sem condenação, pode quebrar o clima, desviar a tensão e criar espaço para que a situação mude. Depois, um comentário como:

— Eu também aprontava quando criança…
— Meus filhos também já me tiraram do sério…
— Posso conversar com sua criança?

Isso pode abrir um caminho de acolhimento e transformação.

A violência deixa marcas profundas

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, mais de 37 mil crianças e adolescentes foram vítimas de violência letal no Brasil, incluindo homicídios e mortes decorrentes de negligência e abusos domésticos. 

Esses números revelam que, muitas vezes, o perigo não está nas ruas, mas dentro de casa — justamente no espaço que deveria ser o mais seguro. Defender uma criança, portanto, não é apenas um gesto de coragem individual: é um compromisso coletivo de romper o silêncio e transformar a cultura que ainda normaliza a violência.

O que é contraproducente?

Aprendi com a Dra. Kristen Panthagani sobre a renomada pesquisadora da vergonha, Brené Brown. Ela distingue bem:

  • A culpa diz: fiz algo ruim.
  • A vergonha diz: eu sou ruim.

A culpa pode ser útil: revela quando precisamos mudar um comportamento. A vergonha, por outro lado, sufoca.

  • A culpa diz: essa foi a decisão errada.
  • A vergonha diz: vocês são idiotas.

No meu contexto, gosto de lembrar a passagem da mulher surpreendida em adultério (João 8,10-11):

“Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”
“Ninguém, Senhor.”
“Eu também não a condeno. Agora vá, e não peque mais.”

Não se trata de aceitar o erro ou conviver com mentiras. Trata-se de respeitar as experiências vividas e construir pontes para que ninguém fique para trás — e todos, juntos, possamos construir um mundo mais justo e solidário.

A curiosidade como ponte

Minha colega na Georgetown University – The Lancet Commission on Faith, Trust, and Global Health, Dra. Katelyn Jetelina, escreveu sobre sua experiência com pessoas que são contra vacinas e outras questões da saúde pública:

“… muitas pessoas estão fazendo perguntas reais e de boa-fé. Elas reagem a lacunas e falhas que nós, da saúde pública, também reconhecemos.

Se não enxergarmos essa diferença, corremos o risco de alienar ainda mais quem já se sente ignorado.

Confirmamos a narrativa de que o sistema de saúde não escuta, não se importa, e pinta todos os críticos com a mesma tinta.

A curiosidade pode ser uma ponte.

Mesmo quando moldada por diferentes experiências vividas e prioridades, a curiosidade cria um espaço para o diálogo. Se estivermos dispostos a conviver com o desconforto, fazer perguntas melhores e realmente ouvir, podemos repensar como a saúde pública funciona — e a quem ela serve.

Estou ansiosa para continuar aprendendo. Também espero que eles continuem a descobrir o que a saúde pública oferece — como instituição e como parceira para ajudar indivíduos e comunidades a prosperar.”

O que quero deixar no seu coração

Quero que você leve consigo a certeza de que nenhuma criança deve enfrentar a violência sozinha. Quando escolhemos agir — com uma palavra, um gesto, uma presença — criamos uma barreira de proteção que pode salvar uma vida e mudar destinos. Não é apenas sobre coragem individual, mas sobre uma sociedade inteira que decide não aceitar a violência como normal.

Que no seu coração fique a convicção de que defender uma criança é sempre maior do que o risco de se expor. Porque, no fundo, é isso que define quem somos: a capacidade de proteger os mais vulneráveis, mesmo quando isso exige de nós desconforto, ousadia e amor.

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