Inspirado pelo webinar com a participação do Dr. Nelson Arns Neumann, referência em saúde pública e desenvolvimento comunitário, este artigo reúne os principais aprendizados da experiência mundial com o kit de ferramentas para nutrir o desenvolvimento espiritual de crianças na primeira infância, implementada em diferentes contextos comunitários.
O Consórcio, convocado pela Arigatou International, reúne organizações da sociedade civil, comunidades religiosas, organizações multilaterais, o meio acadêmico e especialistas individuais para compartilharem boas práticas disciplinares baseadas em evidências. O objetivo é integrar a educação em valores e espiritualidade na primeira infância, visando a proteção das crianças contra a violência e a promoção de seu bem-estar integral.
Entre estas organizações, está a Pastoral da Criança Internacional. O evento destacou como a espiritualidade pode ser vivida de forma prática, contribuindo para uma educação não violenta, o fortalecimento de laços afetivos familiares e a transformação das práticas parentais.
Com base nesse encontro e nos relatos de famílias brasileiras, exploramos neste artigo os impactos reais do Toolkit na vida cotidiana das comunidades envolvidas.
- Como foi conduzida a experiência no Brasil
- Transformações nas práticas parentais e vínculos familiares
- Conexões entre espiritualidade, comunidade e mudança de comportamento
- Percepções dos participantes e impacto individual
- Espiritualidade vivida na prática diária das famílias
Continue a leitura para descobrir como a gestão emocional das famílias pode ser transformada por meio da espiritualidade!
Como foi conduzida a experiência no Brasil
A avaliação do Child Spiritual Development Toolkit contemplou diferentes formas de participação. No Brasil e no Paquistão, houve envolvimento direto dos pais em contexto comunitário; já na Índia e no México, a participação ocorreu prioritariamente com as crianças.
No caso brasileiro, optou-se por trabalhar com grupos de pais reunidos dentro das suas comunidades. Essa abordagem favoreceu o fortalecimento de laços emocionais fortes entre os membros e permitiu que a comunicação afetiva fosse aprimorada.
Embora a opção pelos grupos de pais tenha trazido grandes aprendizados, os desafios concretos logo se impuseram: encontrar locais adequados para os encontros, lidar com as distâncias, o tempo escasso das famílias em situação de vulnerabilidade e a própria instabilidade cotidiana — de moradia, de trabalho e de apoio familiar — mostrou como a pobreza reforça barreiras à participação contínua.
Transformações nas práticas parentais e vínculos familiares
Os pais relataram melhorias na autorregulação e na gestão emocional, nas práticas de comunicação, na presença e vínculo afetivo com os filhos, e também em suas práticas disciplinares saudáveis, que se tornaram menos violentas e mais orientadas pelo diálogo.
Os grupos se tornaram espaços seguros de expressão e acolhimento. Ali, os pais falaram de suas histórias, angústias e dúvidas — até de comportamentos que reconheciam como inadequados ou violentos — sem medo de julgamento ou de serem denunciados às autoridades públicas, o que, em casos extremos, poderia levar à perda da guarda dos filhos.
Refletir sobre suas próprias histórias e reconhecer que também haviam sido criados em ambientes violentos foi um passo importante para perceberem que é possível fazer diferente com seus filhos e praticar uma educação não violenta.
Essa realidade não era abstrata: uma das famílias participantes foi denunciada por vizinhos logo nos primeiros encontros e a criança foi retirada da família e colocada em abrigo. Ficou evidente que, se tivéssemos chegado mais cedo, o grupo poderia ter oferecido apoio restaurativo, permitindo à família mudar suas práticas e à comunidade referendar essa transformação perante as autoridades, atuando como rede protetiva, não punitiva.
Conexões entre comunidade e mudança de comportamento
A experiência brasileira confirma, na prática, um princípio central do Mudança de Comportamento Social/Social and Behavior Change (SBC) promovido pelo UNICEF: mudanças sociais duradouras não acontecem pela imposição ou pelo medo, mas pela construção de novos significados dentro de redes de confiança.
Nessa perspectiva, a mudança individual é necessária, mas não suficiente. O que sustenta a transformação é o ambiente social: o modo como a comunidade reage, apoia e define o que é aceitável ou não.
A transformação de comportamentos exige mais do que mensagens educativas — requer ambientes sociais e espirituais que acolham, apoiem e inspirem. As comunidades de fé têm um papel singular nesse processo: oferecem sentido, pertencimento e moral compartilhada, três condições essenciais para mudar normas sociais.
Fé como inspiração para reconciliação e não violência
As religiões têm um papel único nesse processo. Elas reúnem pessoas em torno de valores compartilhados, criam redes de confiança e possuem uma profunda capacidade de mobilização moral e emocional. Quando líderes e comunidades de fé se comprometem com a proteção da infância, reconstruindo vínculos e apoiando famílias frágeis, eles mudam a norma social — transformam o que antes era tolerado em algo inaceitável.
Mais do que atribuir culpa à família, trata-se de reconstruir vínculos, apoiar os frágeis e restaurar o tecido comunitário.
Assim, a fé pode inspirar não só arrependimento, mas caminhos concretos de reconciliação e reconstrução, promovendo um ambiente em que a violência nunca seja vista como expressão de amor ou correção, mas como algo incompatível com a dignidade humana e espiritual da criança.
Quando uma comunidade religiosa se compromete a apoiar as famílias frágeis, reconstruir vínculos e afirmar o valor da não violência, ela se torna um verdadeiro agente de transformação social capaz de sustentar mudanças que nem a lei, nem as políticas públicas isoladamente conseguem produzir.
Percepções dos participantes e impacto individual
Da avaliação da Universidade de Notre Dame, as falas dos participantes destacaram os impactos positivos na forma como passaram a lidar com seus filhos. A consciência sobre os padrões de violência internalizados ao longo da vida permitiu uma revisão profunda do comportamento parental.
Expressões como “preferi conversar com minha filha ao invés de bater”, ou “na minha casa, agora conversamos em vez de gritar” mostram a efetiva adoção de práticas disciplinares mais saudáveis.
Uma das mães exemplificou: “Falei, ‘vamos lá ver o mar’, só pra conversar. Na hora que voltamos, ela dormiu. Pronto, uma surra a menos na vida da minha filha.”
Os participantes também valorizaram o espaço para reflexão nas discussões dos grupos focais. Com isso, muitos conseguiram compreender que viveram em ambientes violentos, e acabavam repetindo esses padrões com as suas crianças.
Inicialmente, os pais e cuidadores achavam que usar a violência era o jeito normal de lidar com as crianças, já que eles (os cuidadores) haviam sofrido violências na infância e estavam “bem” atualmente. Bater, falar alto, ser intolerante e impaciente com as crianças eram atitudes muito comuns nas famílias. Porém, essa tomada de consciência sobre as violências que sofreram na infância foi importante para entenderem que muitas das suas dores atuais se relacionavam com esse passado.
“Às vezes, as pessoas falam ‘apanhei, mas não morri’, mas tem essa questão da ansiedade, da depressão, das mágoas… a pessoa não consegue viver bem, em harmonia com a sociedade e com a família. Então, realmente, o fator infância dos pais, dos avós, se refletiu muito, e a gente conseguiu trabalhar bem isso também dentro do encontro, porque eles tinham conhecimento da causa para estar conversando”, contou uma das facilitadoras no evento.
Essa tomada de consciência foi importante para ajudar a reparar algumas das feridas do passado dos pais e cuidadores e permitiu que eles entendessem a importância de lidar de outra forma com seus filhos.
Sobre violência verbal e física na educação familiar
No começo dos encontros, alguns dos cuidadores diziam que “não adianta educar se não podem usar a lei da palmatória”. Usar violência verbal, dar chineladas, tapas ou tirar algo à força da criança eram comportamentos vistos pelos pais e cuidadores como necessários e normais para educar seus filhos (e não são).
Outros participantes levantaram que era um desafio não usar a violência, pois diante de experiências extremas com os filhos, muitas vezes o comportamento violento era mais rápido do que pensar e fazer diferente.
Uma das facilitadoras compartilhou o relato de uma das suas participantes: “Teve uma mãe que falou que não dá mais palmadas na filha, que prefere conversar, por mais difícil que seja. Outra mãe falou que, na casa deles, era costume ficarem gritando uns com os outros. Atualmente, até quando o marido tem essa atitude, ela conversa com ele. Ele não participou dos encontros, mas ela conseguiu sensibilizá-lo.”
Outro caso envolveu uma mãe que, incentivada pelos encontros, passou a ler histórias para a filha em vez de permitir que ela ficasse até tarde no celular, o que melhorou a rotina matinal e reduziu atritos.
Espiritualidade vivida na prática diária das famílias
Com os conteúdos discutidos e sua integração às crenças espirituais ou religiosas, os participantes passaram a compreender que muitos aspectos do dia a dia — como brincar, dialogar, dar bons exemplos e cultivar relações saudáveis — fazem parte da espiritualidade familiar.
Essa espiritualidade cotidiana ajudou a consolidar vínculos, reduzir a violência e reforçar a identidade familiar, em consonância com os objetivos do Child Spiritual Development Toolkit.
Conclusão
A experiência do kit de ferramentas para nutrir o desenvolvimento espiritual de crianças na primeira infância demonstra que quando os cuidadores são apoiados na reflexão sobre seus próprios valores e experiências, especialmente por meio de uma perspectiva espiritual, eles se tornam mais conscientes de como seu passado e suas emoções moldam sua parentalidade e ficam mais propensos em promover relacionamentos positivos, não violentos e afetuosos com seus filhos.
Com os conteúdos discutidos e sua integração às crenças espirituais ou religiosas, os participantes passaram a compreender que muitos aspectos do dia a dia, antes não associados à espiritualidade, faziam parte dela.
Eles descobriram que ter uma boa comunicação (em vez de gritar ou bater), cuidar para ter espaços seguros, valorizar os relacionamentos, brincar, ter uma conexão com a natureza, dar bons exemplos para os filhos, cultivar uma boa relação com eles, estimular tradições familiares, eram todos componentes da espiritualidade.
