Category: Espiritualidade e bem-estar comum

  • Espiritualidade e Saúde: um chamado para viver com fé e compromisso

    Existem muitas definições de espiritualidade. A que mais me inspira é simples e direta: espiritualidade é a forma concreta como vivemos — nosso estilo de vida, a maneira como cada um de nós expressa sua fé na vida real.

    Nos últimos anos, essa dimensão deixou de ser vista apenas como assunto religioso e passou a ser reconhecida também no campo da saúde. Isso porque a nossa saúde física é muito influenciada pela nossa saúde emocional e intelectual.

    Ideais que inspiram ações políticas para saúde

    Em 1984, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou a relevância da espiritualidade ao afirmar que ela impulsionou avanços globais em saúde, recomendando que cada país a considerasse em suas políticas nacionais dentro da estratégia “Saúde para Todos”.

    A OMS entende espiritualidade como um fenômeno não material, pertencente ao campo das ideias, crenças, valores e princípios éticos que emergem da consciência humana — especialmente aquelas ideias enriquecedoras que inspiram a ação em saúde.

    Mais recentemente, em 2025, o Conselho Federal de Medicina (CFM) criou a Comissão de Saúde e Espiritualidade. No mesmo ano, a revista médica de maior impacto no mundo, The Lancet, em conjunto com a Universidade de Georgetown, lançou a Comissão sobre Fé, Confiança e Saúde Global — da qual tenho a alegria de fazer parte.

    Espiritualidade é uma forma concreta de viver a nossa fé.

    No contexto cristão, espiritualidade é viver a fé como resposta ao chamado de Deus. É deixar-se conduzir pelo Espírito Santo, que é sempre fonte de vida, mas também um vento impetuoso que nos desafia, desinstala e nos empurra para além do nosso conforto (cf. At 2).

    O Espírito gera acontecimentos — por vezes desconfortáveis — que nos impulsionam a sair da zona de conforto e avançar para lugares desconhecidos¹.

    O que eu quero deixar no seu coração

    Aqui no Saúde no Dia a Dia, a nossa proposta é justamente essa: viver a espiritualidade como inspiração e compromisso. Queremos democratizar o conhecimento, mas também provocar. Cutucar a nós mesmos e a você, para que não caiamos no pensamento de rebanho.

    Precisamos nos incomodar com a realidade do nosso país e de seus habitantes. E, a partir desse incômodo, agir. Porque espiritualidade verdadeira não é só contemplação: é também compromisso com um mundo mais justo e solidário.

    Portanto, deixo aqui um desafio para você: busque a Deus. À medida que você se aproximar das palavras e do agir dEle, sentirá transformações enriquecedoras na sua saúde de forma integral.

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    ¹ Estas ideias foram retiradas do Guia do Líder da Pastoral da Criança, página 317, 18ª edição, abril de 2018. O capítulo “Espiritualidade – Mística – Liturgia” foi escrito a várias mãos, com inspirações de Paulo Ueti e muito trabalho de Valdemar Caldin.

  • Até que ponto nos arriscamos para defender uma criança?

    Lembro-me de quando eu era criança, vivendo em uma área rural. Ficava chateado com meu pai: ele não fazia nada quando contávamos que um vizinho batia em nosso amigo, companheiro das peladas de futebol.

    Mas um dia, o pai desse adolescente, alcoolizado (e sem o costumeiro chicote em mãos) pegou o que estava mais próximo: uma foice. Corri para avisar meu pai. Ele saiu em disparada e ficou entre o adolescente e o homem, desviando-se das tentativas do agressor de acertar o menino com a foice.

    O desespero foi ainda maior: agora era meu pai que corria risco. Depois de eternos minutos, o homem largou a foice, acalmou-se (e o adolescente fugiu para o mato). Quando voltamos para casa, perguntei por que ele havia interferido. Meu pai respondeu, com tranquilidade:

    — Tudo tem limite.

    Normas sociais são regras informais

    Lembrei desta história ao participar do “Seminário Internacional sobre Mudança Social e Comportamental (SBC) para Atores da Fé” promovido pelo UNICEF. Aprendemos que normas sociais são regras informais (geralmente não escritas) que definem o que é considerado aceitável dentro de um grupo ou comunidade. Uma norma social existe quando fazemos algo porque acreditamos que outros membros da comunidade fariam o mesmo.

    Na minha infância, a norma social era sempre corrigir as crianças, mesmo com violência: “É de pequeno que se torce o pepino”, dizia-se. Era o que se esperava de um “bom pai”, principalmente em áreas rurais.

    E isso me faz pensar: o quanto você se arriscaria para defender uma criança? Pelo que vejo nas ruas e praças, pouquíssimas pessoas interferem. Fácil ouvir alguém comentando que o adulto (ir)responsável está sendo desatento ou negligente e que logo a criança irá se machucar e, então, dar as costas – “problema deles”.

    No entanto, às vezes, uma simples frase pode mudar o rumo: cuidado com a balança, ela não tem freio!

    Em outras situações, o desafio é maior: como intervir quando uma criança está apanhando de um adulto, no meio da rua? Esperar a polícia pode ser tarde demais. Comentar algo como “vai bater em alguém do seu tamanho?” pode ser visto como provocação (ou um pedido para ser a vítima…).

    Mas às vezes, um simples “Posso ajudar?”, dito sem condenação, pode quebrar o clima, desviar a tensão e criar espaço para que a situação mude. Depois, um comentário como:

    — Eu também aprontava quando criança…
    — Meus filhos também já me tiraram do sério…
    — Posso conversar com sua criança?

    Isso pode abrir um caminho de acolhimento e transformação.

    A violência deixa marcas profundas

    Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2022, mais de 37 mil crianças e adolescentes foram vítimas de violência letal no Brasil, incluindo homicídios e mortes decorrentes de negligência e abusos domésticos. 

    Esses números revelam que, muitas vezes, o perigo não está nas ruas, mas dentro de casa — justamente no espaço que deveria ser o mais seguro. Defender uma criança, portanto, não é apenas um gesto de coragem individual: é um compromisso coletivo de romper o silêncio e transformar a cultura que ainda normaliza a violência.

    O que é contraproducente?

    Aprendi com a Dra. Kristen Panthagani sobre a renomada pesquisadora da vergonha, Brené Brown. Ela distingue bem:

    • A culpa diz: fiz algo ruim.
    • A vergonha diz: eu sou ruim.

    A culpa pode ser útil: revela quando precisamos mudar um comportamento. A vergonha, por outro lado, sufoca.

    • A culpa diz: essa foi a decisão errada.
    • A vergonha diz: vocês são idiotas.

    No meu contexto, gosto de lembrar a passagem da mulher surpreendida em adultério (João 8,10-11):

    “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?”
    “Ninguém, Senhor.”
    “Eu também não a condeno. Agora vá, e não peque mais.”

    Não se trata de aceitar o erro ou conviver com mentiras. Trata-se de respeitar as experiências vividas e construir pontes para que ninguém fique para trás — e todos, juntos, possamos construir um mundo mais justo e solidário.

    A curiosidade como ponte

    Minha colega na Georgetown University – The Lancet Commission on Faith, Trust, and Global Health, Dra. Katelyn Jetelina, escreveu sobre sua experiência com pessoas que são contra vacinas e outras questões da saúde pública:

    “… muitas pessoas estão fazendo perguntas reais e de boa-fé. Elas reagem a lacunas e falhas que nós, da saúde pública, também reconhecemos.

    Se não enxergarmos essa diferença, corremos o risco de alienar ainda mais quem já se sente ignorado.

    Confirmamos a narrativa de que o sistema de saúde não escuta, não se importa, e pinta todos os críticos com a mesma tinta.

    A curiosidade pode ser uma ponte.

    Mesmo quando moldada por diferentes experiências vividas e prioridades, a curiosidade cria um espaço para o diálogo. Se estivermos dispostos a conviver com o desconforto, fazer perguntas melhores e realmente ouvir, podemos repensar como a saúde pública funciona — e a quem ela serve.

    Estou ansiosa para continuar aprendendo. Também espero que eles continuem a descobrir o que a saúde pública oferece — como instituição e como parceira para ajudar indivíduos e comunidades a prosperar.”

    O que quero deixar no seu coração

    Quero que você leve consigo a certeza de que nenhuma criança deve enfrentar a violência sozinha. Quando escolhemos agir — com uma palavra, um gesto, uma presença — criamos uma barreira de proteção que pode salvar uma vida e mudar destinos. Não é apenas sobre coragem individual, mas sobre uma sociedade inteira que decide não aceitar a violência como normal.

    Que no seu coração fique a convicção de que defender uma criança é sempre maior do que o risco de se expor. Porque, no fundo, é isso que define quem somos: a capacidade de proteger os mais vulneráveis, mesmo quando isso exige de nós desconforto, ousadia e amor.

  • Quebrando a Lei dos Cuidados Inversos

    Esta é uma “lei” que vale a pena quebrar: a população que mais precisa de boa assistência médica é justamente a que menos a recebe!

    Há mais de 50 anos, o médico inglês Julian Tudor Hart expôs esta lei não escrita, resultado da lógica de mercado aplicada à saúde: quem tem melhores condições de vida adoece menos e acessa uma medicina de qualidade; quem mais precisa, recebe cuidados piores (quando recebe).

    Será que continua assim? E o nosso SUS? Conheço bem o Maranhão, desde antes do nosso SUS-Sistema Único de Saúde. Na região de Bacabal, antes do SUS, quem não tinha dinheiro simplesmente não era atendido pelos médicos (com exceção do Ambulatório Madre Rosa, das irmãs alemãs de Nossa Senhora dos Anjos, onde trabalhei nos anos de 1988 e 1989).

    Um Sistema Único de Saúde com muitas diferenças

    Posso dizer que, nos últimos 30 anos, o Maranhão avançou o equivalente a meio século em termos de saúde. Mas ainda está muito atrasado em relação às regiões mais ricas do país. Quer exemplos?

    • a Maternidade Dona Iris, da prefeitura de Goiânia/GO, tem 70% dos leitos individuais e no restante, duas gestantes por enfermaria. 
    • na Maternidade Regional de Imperatriz/MA, no mesmo período, havia 29 gestantes por enfermaria

    E pior: um município a apenas 50 km de São Paulo/SP tinha uma maternidade nova, recém equipada com mais de R$ 10 milhões em equipamentos, mas permanecia fechada, porque a Santa Casa local dava conta de todos os nascimentos, com folga.

    A chamada sistemática do “orçamento secreto”, praticada pelo Congresso Nacional, é parte do problema: infelizmente não é a necessidade da população que define para onde vão bilhões de reais do orçamento do Ministério da Saúde.

    E quem mais sofre com isso?

    As gestantes que buscam atendimento em Imperatriz, por exemplo, vivem em piores condições de vida, têm maior proporção de gestações de alto risco, e demandam mais exames, UTI neonatal, especialistas…

    Já em Goiânia ou São Paulo, as gestantes têm mais saúde, acesso à atenção pré-natal adequada e chegam em melhores condições aos serviços.

    Ou seja, mesmo que o Maranhão recebesse a mesma quantidade de recursos financeiros que Goiás ou São Paulo, suas gestantes não teriam o mesmo resultado nos atendimentos. Isso porque tratar pessoas em situação de maior vulnerabilidade custa mais caro e exige políticas mais sensíveis e equitativas.

    Como quebrar este ciclo vicioso?

    • Conhecendo a realidade.
    • Investindo mais onde e em quem mais precisa.
    • Praticando uma solidariedade inteligente — não aquela que mantém o pobre pobre.
    • Políticas intersetoriais para atacar as causas sociais da desigualdade: a saúde depende de saneamento, renda, alimentação adequada, transporte, habitação…
    • Monitoramento do impacto das políticas de equidade: uso de indicadores específicos para medir se ações e recursos estão realmente reduzindo desigualdades.

    O que quero deixar no seu coração

    Investir igualmente em realidades desiguais é perpetuar injustiças. Equidade em saúde exige priorizar os mais vulneráveis.

    E essa ideia de equidade é bastante antiga, já consta na Bíblia, conforme Atos dos Apóstolos, 4:34-35: “Não havia pessoas necessitadas entre eles, pois o que tinham era distribuído conforme a necessidade de cada um.”

  • Fatores de confusão: o que eles escondem na ciência?

    Fui apresentado aos famosos “fatores de confusão” no meu mestrado de Epidemiologia, na Universidade Federal de Pelotas. Achei confuso! Mas aí, lembrei do meu carro, um Palio: fazia 16 km/l quando eu dirigia, e apenas 11 km/l quando minha esposa dirigia.

    Alguém me perguntou: 

    — Ela dirige em alta velocidade? 

    — Não, eu é que costumo dirigir mais rápido.

    — E a carga do carro? 

    — Eu geralmente ando com o carro cheio: porta-malas lotado, três filhas a bordo. Ela anda quase sempre sozinha.

    — Ela dirige mal? 

    — Pelo contrário, dirige melhor do que eu: mais atenta, menos riscos, evita rotações altas.

    Então, onde está o mistério? A resposta veio com uma pergunta simples: “Onde vocês dirigem?”

    Eu usava o carro apenas nos fins de semana, para viagens de estrada com a família. Ela, durante a semana, em trajetos curtos e urbanos. Ou seja: a variável que explicava a diferença de consumo não era quem dirigia, mas onde se dirigia. Esse é o fator de confusão!

    Por que é importante controlar estes fatores de confusão? 

    Porque eles podem criar associações falsas ou esconder associações verdadeiras. No nosso caso, se alguém não levasse isso em conta, poderia concluir injustamente que minha esposa dirige mal — quando, na verdade, ela só dirige mais na cidade (mas, sim, dirige melhor também!).

    Como controlar esse fator de confusão? 

    O jeito mais fácil é separar/estratificar o que causa a confusão:

    • Consumo urbano: ela faz 11km/l; eu, 9 km/l (trânsito urbano de Campo Largo/PR, gente! Não tem aquele para, anda, lombada, para de novo… de outras cidades);
    • Consumo em estrada: ela faz 17 km/l; eu, 16 km/l (sim, o paliozinho 1.0 era muito econômico).

    Outro jeito é usar modelos estatísticos (regressão logística, regressão linear, regressão de Cox…). 

    Mas e quando o fator de confusão é desconhecido?

    Aí o jeito é o sorteio de quem irá para cada grupo, chamado em epidemiologia de randomização ou aleatorização. Lembra dos testes das vacinas contra a COVID-19?

    Ninguém escolhia quem tomava vacina ou placebo. Era tudo por sorteio — nem a pessoa, nem o pesquisador decidia. Assim, os fatores de confusão (idade, comorbidades, tipo de trabalho, sexo, etc.) tendem a ser distribuídos igualmente nos dois grupos.

    No nosso exemplo: teríamos proporções semelhantes de motoristas urbanos e rodoviários, homens e mulheres, motoristas experientes e novatos.

    Tem uma técnica avançada chamada de pareamento (ou matching), usado em estudos caso-controle, mas isso é avançado – fica pra outro dia!

    Exemplos de fatores de confusão 

    “A atividade física faz mal para os pobres e bem para os ricos???”

    Opa! Vamos olhar com lupa:

    O pobre faz esforço físico no trabalho, carregando peso, sem pausas, em más condições. O rico faz academia com personal trainer. Fator de confusão: a condição socioeconômica, que influencia as condições de vida, o tipo de exercício e o risco de adoecer.

    “Fumar protege contra demência em idosos???”

    Parece? Mas é que muitos fumantes morrem antes de chegar à idade de desenvolver demência. O desfecho (demência) não ocorre porque o risco (óbito precoce) vem antes. Aqui há confusão e um pouco de viés de sobrevivência.

    “Vacina ruim parece que funciona???”

    Por quê? Quem tem melhor acesso tem acesso fácil à vacina, também tem aos serviços de saúde, diagnóstico precoce, tratamento adequado, saneamento, boa alimentação…

    Assim, se só observarmos quem foi hospitalizado ou morreu, sem controlar esses fatores, podemos superestimar o efeito da vacina.

    Por isso, testes com randomização são tão importantes: eles nos ajudam a separar o efeito real da vacina de todos os outros fatores envolvidos. E a nossa ANVISA-Agência Nacional de Vigilância Sanitária só aprova as vacinas realmente boas, feitas com estudos bem feitos.

    Enfim, a observação cuidadosa do que acontece ao nosso redor é essencial — mas nem sempre a gente percebe tudo que está por trás do que vê. Às vezes, tem um fator escondido que muda completamente o sentido das coisas.

    É aí que entram os estudos bem planejados, com métodos robustos e interpretações criteriosas. 

    O que quero deixar no seu coração

    Nem mesmo os cientistas enxergam tudo de imediato. Por isso, os resultados de pesquisas são submetidos à avaliação de outros cientistas antes de serem publicados. 

    Essa tal de “revisão por pares” nada mais é do que um jeito de garantir que mais olhos críticos ajudem a enxergar o que um pesquisador sozinho pode ter deixado passar. Afinal, entender a realidade é um esforço coletivo.


    Fontes que usei para escrever isso para você:

    Cada movimento realmente conta para uma saúde melhor?

    Fumo de cigarro e demência