Category: Sono, rotina e bem-estar da família

  • Morte súbita de bebês: causas, prevenção e cuidados essenciais no sono infantil

    A morte súbita de bebês é uma das maiores preocupações entre pais e cuidadores. Esta situação causa medo e dúvidas, especialmente quando se trata da posição correta para o bebê dormir. 

    “Mas não engasga?”. Essa é a pergunta mais comum entre mães, pais e cuidadores que têm medo de colocar o bebê para dormir de barriga para cima.

    Esse receio é compreensível, parece mais seguro deixá-lo em outra posição. Mas a ciência já comprovou que dormir de lado ou de bruços aumenta o risco de morte súbita de bebês recém-nascidos.

    Neste artigo, você vai entender como proporcionar um sono seguro para o bebê, com cuidados essenciais que ajudam a prevenir a morte súbita.

    • Um causo de morte súbita de bebê
    • Causas de morte súbita de bebês
    • Como prevenir a morte súbita de bebês e engasgamentos
    • Mecanismos que tentam explicar a morte súbita de bebês

    Continue a leitura para saber como preparar o seu bebê para dormir bem!

    Um causo de morte súbita de bebê

    Uma de minhas marcantes lembranças da minha mãe, Dra. Zilda, ocorreu quando eu tinha uns 5 anos de idade. Num sábado, logo cedo, apareceu uma mãe desesperada, perguntando se era ali que morava uma médica pediatra. 

    Curioso, eu fui até a varanda de nossa casa e acompanhei. Esta mãe mostrou o pequenino bebê todo enroladinho e disse que estava muito bem até a noite mas agora cedo não se mexia… 

    Minha mãe encostou no bebê, ficou branca, correu para pegar o estetoscópio para ouvir o coração do bebê e não ouviu nada. Respirou fundo, olhou para a mãe e fez um sinal não com a cabeça. 

    O desespero da mãe do bebê aumentou ainda mais, disse que não, o filho não poderia ter morrido, ele estava muito bem antes de dormir, todos estavam errados, ela ia buscar um hospital… e saiu correndo. 

    Minha mãe entrou e sumiu. Perguntamos para meu pai onde ela estava e ele só respondeu que ela estava no quarto, triste pelo bebê, para deixar ela chorar. No Domingo, minha mãe não veio almoçar conosco e o pai repetiu que ela ainda estava triste. 

    Depois entramos os três filhos, nos aconchegamos na cama e ficamos com ela. Muitos perguntam o porquê dela ter iniciado a Pastoral da Criança. A resposta é clara: a minha mãe perdeu seu primeiro filho 3 dias após o nascimento, por problemas de parto, Ela sabia o que é a dor de uma mãe e puxou para si a tarefa de evitar tantas mortes e sofrimentos absolutamente evitáveis.

    Causas de morte súbita de bebês

    A morte súbita de bebês ocorre principalmente nos primeiros quatro meses, mas pode acontecer em todo primeiro ano de vida.

    Muitos pais têm medo de colocarem seus bebês para dormirem de barriga para cima e morrerem engasgados ao vomitar, mas a possibilidade de morte súbita é cerca de 10 vezes maior que morrer engasgado ou sufocado;

    A posição barriga para cima não aumenta o risco de engasgo e aspiração em bebês, mesmo aqueles com refluxo gastroesofágico, porque os bebês têm anatomia e mecanismos das vias aéreas que os protegem contra a aspiração.

    Na Inglaterra, desde 2008,toda morte inesperada de bebês é obrigatoriamente investigada pela polícia (no equivalente ao nosso Instituto Médico Legal) e pelas autoridades da saúde.

    Nestas análises, os peritos descobriram que bem poucas mortes ocorrem por aspiração de vômito: quando a criança engasga, os pais certamente acordam e vão acudir a criança e mesmo que isso não ocorra, é muito difícil o vômito obstruir totalmente a respiração: a criança sofre, fica roxinha mas dificilmente morre pelo que se chama de “sufocação e estrangulamento acidental na cama”.

    Na morte súbita de bebês, tecnicamente chamada de “Síndrome da morte súbita na Infância”, o que acontece é que o bebê desliga e não consegue voltar, ocorre uma falha de auto-ressuscitação. Nós adultos também desligamos depois de um bom almoço, num ambiente quentinho: damos aquela pescada mas acordamos (assustados para o riso de muitos).

    Enquanto na Inglaterra, caíram 31% nos últimos 5 anos e já era muito baixa em 2015. No Brasil, entre 2020 e 2023 até aumentou (4%)!

    Neste mapa, pode-se ver que o Brasil está entre os piores da América do Sul.


    Variação percentual anual estimada, por país, nas taxas de mortalidade por morte súbita de bebês, de 1991 a 2021 (Fonte: Sudden Infant Death Syndrome Mortality Trends and Socioeconomic Inequalities Worldwide: Evidence from the Global Burden of Disease Study)

    Como prevenir a morte súbita de bebês e engasgamentos

    A seguir você pode conferir as principais medidas de segurança para proporcionar um sono seguro para o bebê:

    • Colocar o bebê para dormir de barriga para cima: mesmo em sonecas curtas, até um ano de idade, e caso o bebê se vire sozinho após os 4–6 meses, não é necessário recolocá-lo, desde que tenha sido posto inicialmente de barriga para cima;
    • Utilizar superfície firme e sem objetos soltos: sem travesseiros, cobertores, protetores de berço, pelúcias ou rolinhos, cuidando também com os lençóis e cobertores (coloque os braços da criança por cima, pois isso evita que ela mergulhe para baixo);
    • Tire o paninho do rosto do bebê (se você tiver esse costume): colocar um paninho no rosto do bebê para ele dormir logo impede que ele respire bem (“ar viciado”);
    • Não compartilhar a cama: o bebê deve dormir sozinho no berço, não com adultos ou irmãos, ainda mais se o adultos estiver sob efeito de álcool, cigarro ou drogas ou tiver um sono profundo (compartilhar o quarto é diferente e protetor: pode colocar o berço ao lado da cama dos pais até 6 a 12 meses);
    • Evitar fumar durante a gestação e depois do nascimento: não deixar que fumem no ambiente onde está a gestante ou o bebê (cigarros eletrônicos também prejudicam);
    • Use roupas leves no bebê: para evitar o superaquecimento do bebê, use roupas adequadas à temperatura ambiente;
    • Aleitamento materno protege o bebê: só dar o peito até os 6 meses protege ainda mais (lembre que o melhor para o bebê é mamar dois anos ou mais);
    • Evite sonecas em dispositivos para sentar: cadeirinhas de carro, carrinhos de bebê, balanços, cangurus e slings para bebês, não são recomendados para o sono rotineiro, principalmente para bebês pequenos (sofás e poltronas são lugares particularmente perigosos para bebês dormirem, por isso devem ser evitados).

    Aplicando essas medidas de segurança, você proporcionará um sono saudável e seguro para o bebê.

    Uso de chupeta durante o sono

    A sociedade americana de pediatria recomenda, mas ainda há dúvidas. Aparentemente reduz o risco de morte súbita de bebês, possivelmente por manter vias aéreas mais abertas. Algumas instruções de segurança:

    1. Se a chupeta cair durante o sono, não é necessário recolocá-la;
    2. Chupetas não devem ser penduradas no pescoço do bebê, pois há risco de estrangulamento;
    3. Chupetas presas à roupa do bebê não devem ser usadas com bebês dormindo;

    Para bebês amamentados ao seio, a introdução da chupeta deve ser adiada até que a amamentação esteja firmemente estabelecida.

    Dormir em superfícies inclinadas

    Acessórios inclinados para o bebê ficar são proibidos nos EUA, Europa e vários outros países. A Lei do Sono Seguro para Bebês de 2021 dos Estados Unidos e regulamentação européia proíbe a fabricação e a venda de acessórios inclinados e exige que todos os produtos para dormir infantil mantenham uma inclinação de 10 graus ou menos.

    Isso porque os bebês têm cabeça grande e pesada para seu tamanho e pescoço pequeno e fraco. Com isso, a criança tende a apoiar o queixo no peito, diminuindo a possibilidade do nariz captar ar livremente.

    Dormir em uma superfície plana melhora a respiração do bebê mas também o desenvolvimento de sua coluna. O colchão firme e plano sustenta melhor a curvatura natural da coluna do bebê. Isso é muito importante nos primeiros meses de vida pois estabelece  o bom alinhamento entre os músculos e os ossos, base para futuras habilidades motoras da criança.

    Exemplo de material inadequado vendido por uma das mais conhecidas empresas brasileiras de varejo: tem inclinação de mais de 12º! Ou seja, não só é inútil como pode matar o bebê.

    Há até propaganda referindo “O departamento de pediatria do Hospital Universitário de Bruxelas, na Bélgica, desenvolveu um colchão capaz de evitar a regurgitação… A técnica, descrita na última edição da revista especializada Archives of Disease in Childhood, do British Medical Journal, consiste em fazer com que a criança durma de barriga para cima e inclinada em um ângulo de 30 graus.”

    O perigoso é que não se acha artigos recentes sobre isso publicados nesta revista especializada e essa recomendação já foi rebatida em 1995 “pois o risco induzido provavelmente seria maior que o efeito benéfico”.

    Mecanismos que tentam explicar a morte súbita de bebês

    O que se sabe até o momento é que a morte súbita de bebês está relacionada a:

    • Alterações do cérebro (sistema nervoso central);
    • Pequenas anormalidades no coração;
    • Alterações no metabolismo de controle do açúcar/glicose no sangue;
    • Algum mal funcionamento do sistema imune;
    • Mutação similar a epilepsia.

    Conclusão

    A morte súbita de bebês é um tema que preocupa qualquer família, mas a informação correta ajuda a transformar esse medo em cuidado diário. Entender as causas, adotar medidas de sono seguro e observar o ambiente onde o bebê dorme reduz significativamente os riscos. 

    A posição de barriga para cima, o berço livre de objetos, o quarto compartilhado mas sem o bebê dormir na mesma cama com adultos e a atenção a hábitos como o aleitamento e a temperatura do bebê fazem diferença real nos primeiros meses de vida. 

  • Sono infantil: segurança, rotina e bem-estar familiar

    O sono infantil é um dos temas que mais desafiam as famílias e um dos que mais impactam o equilíbrio emocional de toda a casa. Ou seja, a forma como o bebê dorme, onde e com quem compartilha o espaço noturno influencia diretamente sua segurança e bem-estar.

    Este artigo aborda cinco pilares essenciais do sono do bebê e da criança:

    • Sono seguro: quarto compartilhado ou cama compartilhada
    • Vínculos e sono do bebê: efeitos de longo prazo da proximidade
    • Influência da cama compartilhada sobre o sono da criança
    • Sono do recém-nascido e o papel do ambiente durante o dia
    • A importância da rotina de sono para recém-nascido e sua regulação emocional

    Continue lendo para entender como garantir o bom sono do seu bebê.

    Sono seguro: quarto compartilhado ou cama compartilhada?

    O bebê dormir no mesmo quarto, mas sem dormir na cama dos pais é considerado a forma mais segura de manter a proximidade, especialmente nos primeiros 6 meses.

    Já o bebê dormir na mesma cama aumenta o risco de morte súbita infantil (SIDS) e de sufocamento acidental, especialmente nas primeiras semanas de vida.

    Segundo a Academia Americana de Pediatria (2022), quando o bebê dorme perto da cama dos pais, ao alcance de um braço, fica mais fácil amamentar, acalmar e observar o bebê durante a noite.

    Essa proximidade traz conforto para o bebê e mais tranquilidade para os pais. Portanto, é uma estratégia que favorece o sono seguro e fortalece o vínculo entre pais e filho sem comprometer a segurança.

    Já no caso do compartilhamento da cama com adultos, isso aumenta os riscos físicos, principalmente durante o sono do recém-nascido.

    Apesar de recomendações consistentes sobre sono seguro, há diferenças marcantes nas práticas entre regiões. 

    Por exemplo, na cidade de Pelotas (RS), quase metade dos bebês dormiam na cama dos pais no primeiro ano de vida, 46,4% aos 3 meses e 45,8% aos 12 meses (Santos et al., 2009).

    Já na Região Metropolitana de Curitiba, observa-se com frequência o oposto: muitos pais colocam o bebê em outro quarto desde muito cedo.

    A diferença regional mostra que a cultura influencia as decisões parentais, mas os dados reforçam a necessidade de práticas baseadas em evidências para garantir um sono seguro.

    Vínculos e sono do bebê: efeitos de longo prazo da proximidade

    Dormir no mesmo quarto dos pais nos primeiros meses melhora a qualidade do sono do bebê e favorece seu desenvolvimento emocional.

    Um estudo longitudinal conduzido por Roseriet Beijers e colaboradores (2019) acompanhou mães e bebês desde o nascimento até os 8 anos de idade. Durante os primeiros 6 meses, os pesquisadores coletaram dados diários sobre o local de sono do bebê.

    Os resultados foram consistentes:

    • O quarto compartilhado (mas não na mesma cama) nos primeiros seis meses de vida não esteve associado a problemas de sono nem de comportamento mais tarde;
    • Quanto mais semanas o bebê dormia no mesmo quarto dos pais, melhores eram as avaliações maternas da qualidade do sono e maior o comportamento pró-social da criança na idade escolar.

    Os autores explicam que essa proximidade noturna fortalece a regulação emocional e comportamental do bebê, habilidades que, mais tarde, o ajudam a adormecer com mais facilidade e a seguir rotinas familiares de sono.

    Influência da cama compartilhada sobre o sono da criança

    O compartilhamento da cama a longo prazo causa implicações negativas no sono da criança, aumentando o risco de transtornos emocionais e comportamentais anti-sociais na infância.

    No Brasil, o estudo Trajetórias de compartilhamento de cama entre mãe e filho e transtornos psiquiátricos aos 6 anos de idade, conduzido pela epidemiologista Iná Santos na coorte de Pelotas (RS), avaliou como diferentes padrões de compartilhamento da cama ao longo da infância se associam a transtornos mentais aos 6 anos.

    Os resultados mostraram que:

    • Compartilhamento da cama no início da vida e ao longo dos primeiros 6 anos estiveram associados a maiores chances de problemas como ansiedade e tendência a se isolar/retraimento em comparação a crianças que nunca compartilharam a cama;
    • Os efeitos pareciam depender das razões maternas para o compartilhamento da cama, em especial quando ele ocorria por dificuldade de manejo do sono, e não por escolha cultural.

    Esses achados sugerem que, embora a prática do compartilhamento da cama seja comum em várias culturas, a persistência em dormir com os pais pode estar associada a dificuldades emocionais futuras, possivelmente por refletir problemas de sono não resolvidos ou padrões de regulação emocional menos autônomos.

    Quando o objetivo é promover o sono seguro e o bem-estar emocional a longo prazo, o quarto compartilhado com berço próprio continua sendo a recomendação ideal para o sono infantil.

    Sono do recém-nascido e o papel do ambiente durante o dia

    Durante o dia, o sono do recém-nascido também precisa ser seguro e favorecer o desenvolvimento do relógio biológico.

    O sono diurno desempenha um papel essencial na construção do ciclo circadiano, que permite ao bebê distinguir o dia da noite. Assim, a exposição à luz natural, aos sons da casa e à interação social favorece esse aprendizado

    Para cochilos durante o dia, recomenda-se que o bebê fique no mesmo cômodo que a família, deitado em local plano e arejado. Ou seja, não se recomenda o uso de carrinhos e moisés com laterais acolchoadas ou toldos, que comprometem a circulação de ar e a segurança do sono do bebê.

    A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça que o bebê deve sempre dormir de barriga para cima, em superfície firme e livre de objetos soltos.

    Manter uma rotina de sono para recém-nascido, tanto durante o dia quanto à noite, promove estabilidade emocional e reforça o bem-estar familiar. Afinal, a previsibilidade ajuda o bebê a se autorregular e a construir hábitos que facilitam a consolidação do sono ao longo dos primeiros anos de vida.

    Em relação ao sono seguro para o bebê, um exemplo que podemos admirar é o do governo da Finlândia: há quase um século, entregam caixas para bebês a todas as famílias.

    Essa iniciativa oferece suporte igualitário a famílias de diferentes condições sociais para práticas de sono seguro. Em 2023, um estudo publicado na BMC Pediatrics, do famoso grupo da Nature, indicou que a entrega de uma baby-box no estilo finlandês, quando combinada com educação sobre sono seguro, esteve associada a uma maior adoção de práticas de sono seguras no domicílio.

    Conclusão

    As evidências são claras: a proximidade segura favorece o desenvolvimento emocional e o bem-estar familiar.

    Portanto, o compartilhamento do quarto (mesmo quarto, camas separadas) é seguro e benéfico, enquanto o compartilhamento da cama, quando prolongado ou não planejado, pode aumentar riscos físicos e emocionais;

    Além disso, a rotina consistente e a organização do ambiente de sono, tanto de dia quanto à noite, fortalecem o equilíbrio emocional do bebê e da família.

    Afinal, mais do que dormir, o bebê está aprendendo a se autorregular e a presença atenta dos pais, dentro de limites seguros, é a melhor aliada nesse processo.

    Continue acompanhando o nosso blog para aprender mais sobre Saúde no Dia a Dia!

    Referências

    1. Beijers, R., et al. Parent–Infant Room Sharing During the First Months of Life: Longitudinal Links With Behavior During Middle Childhood. Child Development, 2019.
    2. Moon, R.Y. & American Academy of Pediatrics Task Force on Sudden Infant Death Syndrome. Bedsharing and Roomsharing Recommendations. Pediatrics, 2016.
    3. Santos, I.S. et al. Mother–child bed-sharing trajectories and psychiatric disorders at the age of 6 years. Sleep Medicine, 2017.
    4. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Higiene do Sono – Atualização 2021.
    5. Santos, I.S. et al. Epidemiologia do co-leito e do sono infantil em Pelotas (RS): coorte de 2004. Jornal de Pediatria, 2009.
    6. Feld, H., Osorio, J.C., Bahamonde, M. et al. The provision of the baby box was associated with safe sleep practices in a low-resource community: a randomized control trial in Ecuador. BMC Pediatr 23, 31 (2023).