O sono infantil é um dos temas que mais desafiam as famílias e um dos que mais impactam o equilíbrio emocional de toda a casa. Ou seja, a forma como o bebê dorme, onde e com quem compartilha o espaço noturno influencia diretamente sua segurança e bem-estar.
Este artigo aborda cinco pilares essenciais do sono do bebê e da criança:
- Sono seguro: quarto compartilhado ou cama compartilhada
- Vínculos e sono do bebê: efeitos de longo prazo da proximidade
- Influência da cama compartilhada sobre o sono da criança
- Sono do recém-nascido e o papel do ambiente durante o dia
- A importância da rotina de sono para recém-nascido e sua regulação emocional
Continue lendo para entender como garantir o bom sono do seu bebê.
Sono seguro: quarto compartilhado ou cama compartilhada?
O bebê dormir no mesmo quarto, mas sem dormir na cama dos pais é considerado a forma mais segura de manter a proximidade, especialmente nos primeiros 6 meses.
Já o bebê dormir na mesma cama aumenta o risco de morte súbita infantil (SIDS) e de sufocamento acidental, especialmente nas primeiras semanas de vida.
Segundo a Academia Americana de Pediatria (2022), quando o bebê dorme perto da cama dos pais, ao alcance de um braço, fica mais fácil amamentar, acalmar e observar o bebê durante a noite.
Essa proximidade traz conforto para o bebê e mais tranquilidade para os pais. Portanto, é uma estratégia que favorece o sono seguro e fortalece o vínculo entre pais e filho sem comprometer a segurança.
Já no caso do compartilhamento da cama com adultos, isso aumenta os riscos físicos, principalmente durante o sono do recém-nascido.
Apesar de recomendações consistentes sobre sono seguro, há diferenças marcantes nas práticas entre regiões.
Por exemplo, na cidade de Pelotas (RS), quase metade dos bebês dormiam na cama dos pais no primeiro ano de vida, 46,4% aos 3 meses e 45,8% aos 12 meses (Santos et al., 2009).
Já na Região Metropolitana de Curitiba, observa-se com frequência o oposto: muitos pais colocam o bebê em outro quarto desde muito cedo.
A diferença regional mostra que a cultura influencia as decisões parentais, mas os dados reforçam a necessidade de práticas baseadas em evidências para garantir um sono seguro.
Vínculos e sono do bebê: efeitos de longo prazo da proximidade
Dormir no mesmo quarto dos pais nos primeiros meses melhora a qualidade do sono do bebê e favorece seu desenvolvimento emocional.
Um estudo longitudinal conduzido por Roseriet Beijers e colaboradores (2019) acompanhou mães e bebês desde o nascimento até os 8 anos de idade. Durante os primeiros 6 meses, os pesquisadores coletaram dados diários sobre o local de sono do bebê.
Os resultados foram consistentes:
- O quarto compartilhado (mas não na mesma cama) nos primeiros seis meses de vida não esteve associado a problemas de sono nem de comportamento mais tarde;
- Quanto mais semanas o bebê dormia no mesmo quarto dos pais, melhores eram as avaliações maternas da qualidade do sono e maior o comportamento pró-social da criança na idade escolar.
Os autores explicam que essa proximidade noturna fortalece a regulação emocional e comportamental do bebê, habilidades que, mais tarde, o ajudam a adormecer com mais facilidade e a seguir rotinas familiares de sono.
Influência da cama compartilhada sobre o sono da criança
O compartilhamento da cama a longo prazo causa implicações negativas no sono da criança, aumentando o risco de transtornos emocionais e comportamentais anti-sociais na infância.
No Brasil, o estudo Trajetórias de compartilhamento de cama entre mãe e filho e transtornos psiquiátricos aos 6 anos de idade, conduzido pela epidemiologista Iná Santos na coorte de Pelotas (RS), avaliou como diferentes padrões de compartilhamento da cama ao longo da infância se associam a transtornos mentais aos 6 anos.
Os resultados mostraram que:
- Compartilhamento da cama no início da vida e ao longo dos primeiros 6 anos estiveram associados a maiores chances de problemas como ansiedade e tendência a se isolar/retraimento em comparação a crianças que nunca compartilharam a cama;
- Os efeitos pareciam depender das razões maternas para o compartilhamento da cama, em especial quando ele ocorria por dificuldade de manejo do sono, e não por escolha cultural.
Esses achados sugerem que, embora a prática do compartilhamento da cama seja comum em várias culturas, a persistência em dormir com os pais pode estar associada a dificuldades emocionais futuras, possivelmente por refletir problemas de sono não resolvidos ou padrões de regulação emocional menos autônomos.
Quando o objetivo é promover o sono seguro e o bem-estar emocional a longo prazo, o quarto compartilhado com berço próprio continua sendo a recomendação ideal para o sono infantil.
Sono do recém-nascido e o papel do ambiente durante o dia
Durante o dia, o sono do recém-nascido também precisa ser seguro e favorecer o desenvolvimento do relógio biológico.
O sono diurno desempenha um papel essencial na construção do ciclo circadiano, que permite ao bebê distinguir o dia da noite. Assim, a exposição à luz natural, aos sons da casa e à interação social favorece esse aprendizado.
Para cochilos durante o dia, recomenda-se que o bebê fique no mesmo cômodo que a família, deitado em local plano e arejado. Ou seja, não se recomenda o uso de carrinhos e moisés com laterais acolchoadas ou toldos, que comprometem a circulação de ar e a segurança do sono do bebê.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reforça que o bebê deve sempre dormir de barriga para cima, em superfície firme e livre de objetos soltos.
Manter uma rotina de sono para recém-nascido, tanto durante o dia quanto à noite, promove estabilidade emocional e reforça o bem-estar familiar. Afinal, a previsibilidade ajuda o bebê a se autorregular e a construir hábitos que facilitam a consolidação do sono ao longo dos primeiros anos de vida.
Em relação ao sono seguro para o bebê, um exemplo que podemos admirar é o do governo da Finlândia: há quase um século, entregam caixas para bebês a todas as famílias.
Essa iniciativa oferece suporte igualitário a famílias de diferentes condições sociais para práticas de sono seguro. Em 2023, um estudo publicado na BMC Pediatrics, do famoso grupo da Nature, indicou que a entrega de uma baby-box no estilo finlandês, quando combinada com educação sobre sono seguro, esteve associada a uma maior adoção de práticas de sono seguras no domicílio.

Conclusão
As evidências são claras: a proximidade segura favorece o desenvolvimento emocional e o bem-estar familiar.
Portanto, o compartilhamento do quarto (mesmo quarto, camas separadas) é seguro e benéfico, enquanto o compartilhamento da cama, quando prolongado ou não planejado, pode aumentar riscos físicos e emocionais;
Além disso, a rotina consistente e a organização do ambiente de sono, tanto de dia quanto à noite, fortalecem o equilíbrio emocional do bebê e da família.
Afinal, mais do que dormir, o bebê está aprendendo a se autorregular e a presença atenta dos pais, dentro de limites seguros, é a melhor aliada nesse processo.
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Referências
- Beijers, R., et al. Parent–Infant Room Sharing During the First Months of Life: Longitudinal Links With Behavior During Middle Childhood. Child Development, 2019.
- Moon, R.Y. & American Academy of Pediatrics Task Force on Sudden Infant Death Syndrome. Bedsharing and Roomsharing Recommendations. Pediatrics, 2016.
- Santos, I.S. et al. Mother–child bed-sharing trajectories and psychiatric disorders at the age of 6 years. Sleep Medicine, 2017.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Higiene do Sono – Atualização 2021.
- Santos, I.S. et al. Epidemiologia do co-leito e do sono infantil em Pelotas (RS): coorte de 2004. Jornal de Pediatria, 2009.
- Feld, H., Osorio, J.C., Bahamonde, M. et al. The provision of the baby box was associated with safe sleep practices in a low-resource community: a randomized control trial in Ecuador. BMC Pediatr 23, 31 (2023).

